quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Choque analógico




Por Ademir Pernias

Um dia de repouso forçado em casa por uma crise de diverticulite me pôs diante de um fenômeno curioso e engraçado, que resolvi chamar de “choque analógico”. Sem ter muito o que fazer, resolvi colocar meu bom e velho “três em um” da Sharp (quem se lembra?) em funcionamento, com os LPs clássicos de minha juventude. Logo, logo, Joãozinho desviou a atenção do computador para “ver” como o som saía do bolachão preto após ser percorrido pelo braço com uma agulha. Poucas músicas depois, se espantou ao me ver virar o disco para ouvir o outro lado.
Flanando pela casa tranquila enquanto o restante saudável da família trabalhava, eu e o menino, que cumprira pela manhã seu único compromisso do dia – as aulas da terceira série - , resolvemos tentar consertar o telefone sem fio da sala. Para testar a tomada e me certificar que o problema não estava no aparelho, troquei-o por um daqueles modelos analógicos da Telesp, quadrado, cor de areia, com disco, um dos primeiros aparelhos da casa dos pais da minha mulher, nos anos 1970, que eu guardava na minha “coleção de cacos”. Uma vez instalado, pedi ao Joãozinho que testasse o telefone ligando para o celular da mãe dele. Ele parado em frente ao telefone do século passado e aí veio a pergunta: “Como eu faço a ligação, se não tem teclas?”. Não lhe passou pela cabecinha digital que ele deveria introduzir o dedinho indicador no orifício correspondente, no disco, e puxá-lo até o limitador. Tive de explicar ao menino que, apesar de inteligente, não intuiu o funcionamento do aparelho, diferentemente do que ocorre com o videogame, o laptop, o celular, a câmera digital ou o controle da TV a cabo. O menino travou diante de um telefone da Telesp e sua "ficha" não caiu. Uma vez descoberto o segredo de como colocar o ovo em pé, passou a tarde fazendo ligações para a família, curtindo o velho telefone de discar da casa da vovó.
Uma sensação boa, de alma lavada, me passou pela cabeça: me senti vingado pelas humilhações impostas por ele com o Playstation e com o controle da NET Digital. Nada como um choque analógico para uma mente nascida e criada na era dos bits.

Agosto de 2011.

sábado, 23 de abril de 2011

Gran Torino


Por Ademir Pernias

O barulho da chuva na madrugada impediu qualquer chance de que alguém pudesse ouvir o arrombamento do cadeado no portão de ferro. Ato contínuo, os gatunos, porque há consenso na família de que foi mais do que um, abriram o veículo e o empurraram, sem ligar o motor barulhento, para fora da garagem. O que houve a seguir é apenas especulação, de todo inútil, pois o resultado é que o Fusca 1994 modelo Itamar, único dono, comprado na concessionária no ano em que foi fabricado, fora surrupiado. De nada adiantou o boletim de ocorrência exigido, para noticiar à autoridade policial que um crime fora cometido, havia uma vítima e era, pois, necessário prender os meliantes e devolver o bem subtraído ao seu legítimo dono. Nada. À medida em que os dias se passaram, não houve vela de sete dias que fizesse o telefone tocar e um policial, civil ou militar, tanto faz, trazer alvíssaras. “Senhor, seu automóvel foi localizado na favela tal, está intacto, exceto um pequeno amassado no para-lama frontal direito (que já existia antes do furto, mas os agentes da lei não sabiam disso). Pedimos que o senhor compareça à delegacia, com os documentos do mesmo, para reaver seu bem. A Polícia de São Paulo agradece sua confiança e se coloca à sua disposição”, diria o policial ao telefone.
Mas, de volta à realidade, o fato, também especulativo, é que o Fusca verde azulado, ou azul esverdeado, saiu da garagem para atender a uma encomenda de algum desmanche clandestino. Ou seja, logo após ter sido roubado, foi recortado e suas peças, devidamente descaracterizadas. O mesmo ocorreu com o motor. Então, não havia pedido a Santo Expedito ou mesmo pragas rogadas contra os ladrões que trouxessem o Fusca de volta.
O furto do Fusca encerrou melancolicamente a vida de motorista de seu proprietário. Aos 89 anos, ele já tivera de recorrer, com a ajuda dos filhos, a um expediente escuso para renovar sua carteira de motorista. A visão embaçada pela catarata e os reflexos lentos seriam impeditivos para a renovação da licença, que o filho e a mulher insistiram em prorrogar, pelo menos até o ano que vem.
Até o furto, o Fusca era utilizado para saídas curtas pelo bairro, sempre na companhia da mulher: comprar ração para as galinhas, buscar algo no supermercado, levar a Tina, uma cadela Weimaraner cinza de olhos azuis, ao passeio. A Tina já abrira mão dos passeios havia algum tempo, por dores nas pernas para entrar no veículo, ou, versão maldosa, por medo das barbeiragens do motorista. Há algum tempo, numa volta pelo bairro, o Fusca e seu motorista se envolveram na queda de um motociclista. O homem atrás do volante nem se abalou, continuou seu trajeto e, perguntado porque não parou para ver se o da moto tinha se ferido, disse: “Machucou nada, já estava de pé, e afinal, a culpa foi toda dele”.
Mas não foi sempre assim. Seu primeiro carro, um Fuscão coral 1971, foi adquirido usado quando ele já passava dos 50 anos. Foi resultado de duras economias no salário que mal dava para sustentar a família, mulher e quatro filhos. O Fuscão era tratado como um sedã de luxo: limpeza cuidadosa aos sábados, pneu pretinho, cera e, caso fosse obrigado a sair em dias de chuva, não dormia sem ser devidamente enxugado. Depois, vieram outro Fusca, alguns Chevettes e um Del Rey Guia a álcool, numa época em que isso significava enormes dores de cabeça para fazer o carro pegar em dias frios. A todos ele dedicou os mesmos cuidados: limpeza, o tanque sempre cheio, porta-luvas arrumado e “cheirinho” no painel. Mas o Fusca ora furtado era especial. Foi o primeiro carro zero, saído da concessionária com plástico nos bancos e com o tal “cheiro de carro novo”.
Um dos seus filhos pretendia ficar com ele, não como herança financeira, mas como relíquia. Após, obviamente, indenizar os irmãos. Mas não deu.
...

Outro dia, a TV a cabo reprisou Gran Torino, filme de Clint Eastwood no qual ele faz Walt Kowalski, um veterano da Guerra da Coreia, ex-trabalhador na indústria automobilística, que cuida com esmero de seu Ford Gran Torino, até que uma gangue de orientais da vizinhança tenta furtar o automóvel. A força de Kowalski, apesar da idade e da aposentadoria, seu cuidado pelo veículo, me fizeram lembrar do amor de meu pai por aquele Fusca. No cinema americano, Clint dá uma surra nos bandidos e impede o roubo de seu bem. Em Santo André (SP), o 3o Distrito Policial arquiva o caso e encerra com tristeza a história de um homem e seu Fusca.

Abril de 2011.

domingo, 20 de março de 2011

Síndrome do Por do Sol



Por Ademir Pernias

Com o cair da tarde, dona Flor enfia uma muda de roupa numa dessas sacolinhas de supermercado e se prepara para voltar para casa. Depois do dia de passeio na companhia das amigas e amigos do Lar Raio de Sol, a senhorinha franzina, calça comprida preta, sandália aberta exibindo as unhas dos pés pintadas de rosa e conjunto de blusa e casaquinho vermelhos pergunta ansiosa à funcionária do asilo se o filho já chegou para buscá-la. “Ainda não, dona Flor, mas já, já ele estará aqui”, responde com paciência mecânica a moça. Dona Flor se distrai, a noite cai e ela se esquece do filho. Até o crepúsculo seguinte.
Todas as tardes, a conversa se repete no Lar Raio de Sol. Todas as tardes, o Mal de Alzheimer faz com que dona Flor se esqueça de sua condição de abrigada e expresse seu desejo de voltar para casa. É a síndrome do Por do Sol. Após um dia de lazer, quase um piquenique com os amigos, dona Flor gostaria de voltar para casa, para estar na companhia dos filhos e netos.
A rotina no Lar Raio de Sol inclui hospedagem, assistência médica e psicológica e todo o apoio que funcionários pagos podem dar a quase duas dezenas de idosos. A família desembolsa cerca de R$ 2 mil mensais para mantê-los ali. É pouco, até, pela desobrigação de acordar e dormir olhando para eles, ter de repetir várias vezes a mesma resposta e conviver com o horror de não ser reconhecido pelo próprio pai ou pela própria mãe.
A funcionária conta que, às vezes, o filho realmente visita dona Flor. Vem à tarde, com o dia claro. Ela se distrai, vai ao banheiro e, ao voltar, se surpreende com a presença dele, a quem vira há poucos minutos. “Você veio me ver?”.
O Mal de Alzheimer é talvez a mais cruel das doenças. Destrói a capacidade de ter lembranças, destrói os laços afetivos mais profundos, como aqueles que, geralmente, unem mãe e filho, pai e filha por toda a vida. Preserva funções vitais, mas mata a vaidade, o orgulho, a memória e a capacidade de amar. Nos último estágio, destrói conhecimentos instintivos, como o de mastigar e engolir. O doente pode morrer de inanição, pois não sabe o que fazer com sua fome...
Para os parentes, os filhos, a mulher, o marido, os netos, é como se o Mal de Alzheimer tivesse levado a pessoa amada e deixado sua carcaça, como a provar que a crueldade da vida não tem limites. Em vez de chorar seu morto à beira da sepultura, após um enterro digno e uma despedida emocionada, vai-se despedindo dele todos dias, a cada por do sol.

Março de 2011

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Louco por futebol



Por Ademir Pernias

Nem imagino de onde vem a paixão do Joãozinho pelo futebol. Herança paterna aposto que não é. Sou o pai dele e não entendo nada do que acontece entre as quatro linhas do gramado. Ou melhor, não entendia, pois passei a me cercar de consultores especializados, como Vitor Giglio, um amigo do trabalho. Giglio é quase uma enciclopédia ambulante no assunto, ou melhor, uma versão mais “amigável” do Google, capaz de me abastecer de informações que, mais tarde, orgulhoso, repassarei com convicção ao menino. Muitas vezes sou obrigado a assumir minha ignorância, digo que não faço a menor ideia da resposta e prometo consultar o Giglio.
Joãozinho acorda futebol e dorme futebol. Também come futebol e, claro, assiste ao futebol e joga futebol. Mesmo que seja no corredor de casa e resulte em estatuetas pernetas, lâmpadas estilhaçadas e marcas de bola na parede branca.
Embora eu ache que me falte um gene ou um neurônio específico que me impeça de gostar e de entender minimamente a lógica e as regras do esporte bretão, decidi-me que a função de pai de um menino louco por futebol me obrigava a algumas atitudes. Dentre elas uma que eu postergava década após década. Nunca, antes do último domingo, eu havia pisado em um estádio, com o propósito de assistir a um jogo. Estivera numa arena dessas poucas vezes, mas por dever de ofício. Já que minha profissão de repórter me levara antes até lá. Mas para assistir a uma peleja, pagando ingresso, nunca.
Pois bem, decidi que seria eu, e não outro, que levaria o moleque pela mão para assistir a um clássico, com seu time do coração, o São Paulo. A partida escolhida: São Paulo e Palmeiras, arqui-rivais de longa data. O palco: o Morumbi, a casa tricolor. O setor: arquibancada laranja, a preferida da torcida Independente. Os coadjuvantes: Alex, meu cunhado são-paulino e seu filho de 4 anos, Vinícius, que também fazia sua estreia. Os protagonistas: Joãozinho e eu.
Ingressos comprados, lá fomos nós com horas de antecedência para o estádio. A expertise do Alex determinava o procedimento: bermuda de tactel, para secar logo em caso de chuva, capa plástica para eventuais torós e dinheiro trocado para o sorvete “genérico”. Paramos o carro a pelo menos um quilômetro do portão por onde entraríamos, para nos livrarmos da extorsão: R$ 50 para estacionar perto da entrada. Com o ânimo de quem vai, a expectativa do Joãozinho ficava explicitada nas 1001 perguntas. Como chegamos cedo, ainda gozamos de um tratamento civilizado dos PMS encarregados de nos revistar e dos “orientadores” nas catracas. “Meio ingresso entra pela esquerda, inteiro pela direita”, anunciavam. Como eu me separaria do menino, neste caso? “Se o senhor autorizar, entro com ele e o entrego ao senhor logo ali”, garantiu o orientador, solícito. “Claro”, arrisquei.
Vencida esta etapa, lá fomos nós, Alex indicando o caminho, para nossos lugares. O céu negro indicava que um dilúvio cairia sobre a cidade. Não deu outra e, minutos antes do horário marcado para o início do jogo, o céu desaba sobre São Paulo. Lá vamos nós nos proteger na marquise, já sob a ameaça dos treinadores de que não entrariam em campo se a chuva não desse trégua. Uma hora depois, com o gramado ainda encharcado, tinha início o jogo histórico para o Joãozinho: seu primeiro jogo, um clássico, com ingredientes para torná-lo mais inesquecível ainda: uma chuva torrencial, a ameaça de cancelamento, a arquibancada laranja, o Tio Alex, o primo Vinícius... E o papai, a lhe proporcionar tudo aquilo.
Ah! O jogo acabou empatado, com gol de Fernandinho para o São Paulo e de um certo Adriano para “eles”. Que contaram, claro, com um jogador a mais: o filho da puta do juiz.

P.S.: Algumas perguntas a quem souber a resposta: 1) Por que não há lixeiras no estádio? 2) Por que não vendem cerveja ou outra bebida alcoólica no estádio, mas maconha e outras drogas ilícitas têm consumo liberado? 3)Por que os palavrões, os mais cabeludos,são obrigatórios, mesmo em conversas amigáveis?

Fevereiro de 2010.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Televisão


Por Ademir Pernias

Desde que me entendo por gente havia uma televisão na sala de casa. Uma caixa de madeira, quadrada, com imagens em preto & branco. Os botões de volume, contraste e brilho, além do “seletor de canais”, ficavam na lateral. Na frente, apenas o tubo de imagens e a marca: “Silverstone”, vendida com exclusividade na Sears Roebuck. Eu amava aquela TV acima de todas as coisas. A anos-luz de qualquer coisa parecida com computador e internet, aquela caixa fantástica despertava em mim conjecturas a respeito do seu funcionamento, da formação da imagem na tela e até de quem escolhia o desenho que eu iria ver. Às vezes, antes de começar a sessão Hanna-Barbera ou Harvey Toons, eu ficava torcendo para que o “homem” escolhesse aquele que eu gostaria de ver (ou rever, já que não havia assim tantos desenhos).
Como nossa TV ficava ligada muitas horas por dia (mas não tantas como hoje, já que a programação geralmente começava à tarde), costumava apresentar defeitos. As válvulas começavam ficando azuladas e acabavam queimando. Toca meu pai ir chamar o seu Artur. Ir chamar literalmente, já que nem nós, nem o seu Artur, possuíamos telefone próprio, em meados da década de 60. Seu Artur, o técnico, era um velhinho calvo, com alguns poucos cabelos brancos nas laterais e parte posterior da cabeça. Usava óculos redondos, de aro de metal dourado. Visitava os clientes a bordo de uma perua que lhe servia também de estoque de peça. “Veja se consegue passar lá em casa ainda hoje, porque o menino morre sem a televisão”, imagino meu pai dizendo ao técnico.
No final da tarde, depois de fechar a oficina, seu Artur estacionava sua perua em frente à nossa casa e descia do carro, como um médico que faz uma visita de emergência ao enfermo. Maleta de couro na mão e um jaleco branco sobre o terno. Sim, porque o seu Artur fazia seu trabalho de terno e gravata.
Enquanto ele examinava a televisão, eu aguardava num canto do sofá, como alguém da família que espera o diagnóstico e torce para a sentença não seja de muita gravidade. “É uma válvula que queimou, mas tenho outra aqui”, era o que eu gostava de ouvir. Um dia, veio a notícia: “Queimou o flyback, vou ter que levar para a oficina”, disse um seu Arturt compungido em decepcionar aquele menino de camiseta listrada. Nesse dia, passei a considerar o flyback como a "alma" da televisão.
Nessas horas entrava o plano B. A coisa era tão grave que minha mãe tratava de arrumar um vizinho que tivesse TV e me aceitasse pelo menos uma horas por dia em sua sala.
Afinal, eu não podia perder “Os Valentes do Oeste”, ou podia?

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Dona Francisca


Por Ademir Pernias

Sua memória recente é prejudicada pelo Mal de Alzheimer. Mas as reminiscências do passado remoto continuam vivas, frescas como se fossem de ontem. Outro dia, passava de carro com meu pai pela Rua Belém e mostrei a ele o local onde, décadas atrás, ficava a casa de um certo Miguel do Bode. Perguntei se ele se lembrava da personagem. Um velho criador de cabras (ou bodes, daí o apelido). Ele sorriu, feliz por entender o que eu falava e colaborar com minha lembrança. “Claro, ele tinha um filho adotivo, um pretinho, em quem certa vez deu uma surra enorme após culpá-lo pela morte de um animal”. Eu era muito pequeno, mas lembro que a casa do Miguel do Bode era de tijolos aparentes, no meio de um bambuzal que lhe conferia aspecto escuro e assombroso. Foi a deixa. A lembrança do Miguel do Bode, um dos tantos personagens que povoaram minha infância em Santo André, abriu as portas para um desfile de outras figuras que fizeram parte dela e até hoje ocupam espaço em minha memória.
Apareceu na minha mente a estampa de Dona Francisca, uma senhora baixa de pele morena, mulher de um açougueiro cego, entrevado na cama da casa localizada atrás do açougue, que também foi do seu Estanislau. No portãozinho lateral do comércio, que dava acesso à casa, havia um pequeno jardim com um pé de manacá. Era simpática, a Dona Francisca, apesar de sua aparência inspirar um certo medo naquele garoto que eu era em meados dos anos 60. Olhos esbugalhados, a boca meio torta e uma enorme barriga causada por uma hérnia lhe davam um aspecto de bruxa. Some-se a isso que ela mancava de uma perna e usava sempre uma saia preta. Lembro de ter ouvido minha mãe comentar que ela costuma ir a nossa casa logo após o almoço para pegar as sobras de comida. Talvez passassem necessidades, ou mesmo fome, ela e o marido cego.
Tenho arquivada na memória a cena da tarde em que eu tive de vencer o medo e entrar no quarto onde o velho ficava deitado, cego e inválido. Fui lá para dar um recado, ou levar alguma coisa a pedido de minha mãe e Dona Francisca insistiu para eu visitar o marido. A cegueira do velho açougueiro me metia medo. A pele macilenta, a barba branca por fazer, a cegueira ávida, o crucifixo sobre o leito. Dona Francisca o fez tocar meu rosto novo, para meu horror. O cheiro de morte e de urina me acompanhou quando, aterrorizado, passei de novo pelo corredorzinho com o pé de manacá até, aliviado, me ver novamente na rua. O sol já se punha e eu nunca mais o veria. Nem ele tocaria meu rosto.
O açougueiro e Dona Francisca morreriam logo. E a casa seria ocupada pela Chiquinha, filha deles, que ganhava a vida lendo cartas. Fui lá uma vez com a Maria Gorete, uma amiga do colégio, para quem a Chiquinha previu um futuro pecador ao lado de um homem casado.
Outro dia falei com minha mãe sobre a dona Francisca. Perguntei uma coisa e outra sobre ela, para escrever este texto. “Por que lembrar dela agora?”, estranhou. “Não sei”, respondi. Mas eu sabia, sim. O corredor com o pé de manacá, o açougueiro cego na cama, a figura de bruxa. Cenas de terror que aquele menino jamais esqueceu.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Homicídio doloso

Por Ademir Pernias


Com intenção de matar, como fazem questão de explicar os apresentadores de telejornal. Minha ira era tanta que peguei a tesourinha de ponta, aquela usada para cortar as unhas, e enfiei sem dó, várias vezes, e depois puxei rasgando o tecido ordinário. Várias vezes, com uma força além da necessária para fazer o estrago pretendido. Deixei-a estirada no chão do quarto e fui tomar um café. Só depois voltei para me livrar dos restos. Vilipêndio a cadáver, como define o Código Penal a ação de tripudiar sobre o “de cujus”. Pisei como quem apaga uma bituca de cigarro na sarjeta.
Embrulhei os farrapos em jornal velho, como convém, e depois em saco plástico, desses de supermercado. O destino: a lata de lixo. Por enquanto ninguém deu pela falta, ou, se deu, não perguntou.
Eu odiava aquela calça verde limão, barata, comprada na Marisa. De malha rala, moldando o corpo: gostosa, mas sem classe. Cintura baixa, meio transparente, exibindo a calcinha. Calça de favelada, de sambista de escola do segundo grupo.
Humilhou-me vestida com esta calça. Ordinárias. Xingou, me mandou embora, tenho ainda as marcas das suas unhas no meu braço. Mas ela teve o fim que mereceu.
Mal a vi estendida na poltrona do quarto, fiz o que tinha de ser feito.
Ela nunca mais vai usar esta calça, que foi devidamente trucidada com a tesourinha.

Janeiro de 2011.