
Por Ademir Pernias
O barulho da chuva na madrugada impediu qualquer chance de que alguém pudesse ouvir o arrombamento do cadeado no portão de ferro. Ato contínuo, os gatunos, porque há consenso na família de que foi mais do que um, abriram o veículo e o empurraram, sem ligar o motor barulhento, para fora da garagem. O que houve a seguir é apenas especulação, de todo inútil, pois o resultado é que o Fusca 1994 modelo Itamar, único dono, comprado na concessionária no ano em que foi fabricado, fora surrupiado. De nada adiantou o boletim de ocorrência exigido, para noticiar à autoridade policial que um crime fora cometido, havia uma vítima e era, pois, necessário prender os meliantes e devolver o bem subtraído ao seu legítimo dono. Nada. À medida em que os dias se passaram, não houve vela de sete dias que fizesse o telefone tocar e um policial, civil ou militar, tanto faz, trazer alvíssaras. “Senhor, seu automóvel foi localizado na favela tal, está intacto, exceto um pequeno amassado no para-lama frontal direito (que já existia antes do furto, mas os agentes da lei não sabiam disso). Pedimos que o senhor compareça à delegacia, com os documentos do mesmo, para reaver seu bem. A Polícia de São Paulo agradece sua confiança e se coloca à sua disposição”, diria o policial ao telefone.
Mas, de volta à realidade, o fato, também especulativo, é que o Fusca verde azulado, ou azul esverdeado, saiu da garagem para atender a uma encomenda de algum desmanche clandestino. Ou seja, logo após ter sido roubado, foi recortado e suas peças, devidamente descaracterizadas. O mesmo ocorreu com o motor. Então, não havia pedido a Santo Expedito ou mesmo pragas rogadas contra os ladrões que trouxessem o Fusca de volta.
O furto do Fusca encerrou melancolicamente a vida de motorista de seu proprietário. Aos 89 anos, ele já tivera de recorrer, com a ajuda dos filhos, a um expediente escuso para renovar sua carteira de motorista. A visão embaçada pela catarata e os reflexos lentos seriam impeditivos para a renovação da licença, que o filho e a mulher insistiram em prorrogar, pelo menos até o ano que vem.
Até o furto, o Fusca era utilizado para saídas curtas pelo bairro, sempre na companhia da mulher: comprar ração para as galinhas, buscar algo no supermercado, levar a Tina, uma cadela Weimaraner cinza de olhos azuis, ao passeio. A Tina já abrira mão dos passeios havia algum tempo, por dores nas pernas para entrar no veículo, ou, versão maldosa, por medo das barbeiragens do motorista. Há algum tempo, numa volta pelo bairro, o Fusca e seu motorista se envolveram na queda de um motociclista. O homem atrás do volante nem se abalou, continuou seu trajeto e, perguntado porque não parou para ver se o da moto tinha se ferido, disse: “Machucou nada, já estava de pé, e afinal, a culpa foi toda dele”.
Mas não foi sempre assim. Seu primeiro carro, um Fuscão coral 1971, foi adquirido usado quando ele já passava dos 50 anos. Foi resultado de duras economias no salário que mal dava para sustentar a família, mulher e quatro filhos. O Fuscão era tratado como um sedã de luxo: limpeza cuidadosa aos sábados, pneu pretinho, cera e, caso fosse obrigado a sair em dias de chuva, não dormia sem ser devidamente enxugado. Depois, vieram outro Fusca, alguns Chevettes e um Del Rey Guia a álcool, numa época em que isso significava enormes dores de cabeça para fazer o carro pegar em dias frios. A todos ele dedicou os mesmos cuidados: limpeza, o tanque sempre cheio, porta-luvas arrumado e “cheirinho” no painel. Mas o Fusca ora furtado era especial. Foi o primeiro carro zero, saído da concessionária com plástico nos bancos e com o tal “cheiro de carro novo”.
Um dos seus filhos pretendia ficar com ele, não como herança financeira, mas como relíquia. Após, obviamente, indenizar os irmãos. Mas não deu.
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Outro dia, a TV a cabo reprisou Gran Torino, filme de Clint Eastwood no qual ele faz Walt Kowalski, um veterano da Guerra da Coreia, ex-trabalhador na indústria automobilística, que cuida com esmero de seu Ford Gran Torino, até que uma gangue de orientais da vizinhança tenta furtar o automóvel. A força de Kowalski, apesar da idade e da aposentadoria, seu cuidado pelo veículo, me fizeram lembrar do amor de meu pai por aquele Fusca. No cinema americano, Clint dá uma surra nos bandidos e impede o roubo de seu bem. Em Santo André (SP), o 3o Distrito Policial arquiva o caso e encerra com tristeza a história de um homem e seu Fusca.
Abril de 2011.